22 de abril de 2015

Al Green é foda



Pelo reflexo do espelho,
eu te vi ensaiar 
aquele bobo aceno de despedida
segurando minha foto 3x4
horrível
que guardavas na carteira
onde minha barba está enorme e desgrenhada,
mas que tu dizias adorar.

"how can you mend a broken heart?" 

Meu vizinho está ouvindo
aquela música que o Al Green gravou,
e que toca naquele filme que esqueci o nome,
mas lembro que é com a Julia Roberts
e quase me fez chorar.

"É cedo demais, meu bem. 
Nem escureceu ainda", penso em te dizer.
Mas nós dois sabemos que já é desnecessário falar qualquer coisa,
e que 
não existe muita luz, 
no final das contas.  

"But I was never told about the sorrow"

Ainda há pouco, 
enquanto
eu saía do banho,
a pergunta que fiz naquela carta, 
que talvez nunca tenha sido lida
(quem sabe ainda está dentro
daquela revista Piauí,
que está naquela estante,
junto com várias outras revistas 
livros
empoeirados,
que estão dentro daquela casa que está distante
de ti e de mim agora),
voltou clara e limpa: 

Será que em outro tempo, 
outra terra, 
outra vida da qual já não nos lembramos 
por ser longínqua demais,
demos tanto amor um para o outro
a ponto de fazer o deuses, sentindo o mais genuíno despeito, 
nos condenarem ao desencontro constante
nos atuais 
tempo,
terra,
vida?

"Please help me mend my broken heart"

Tive aquele pesadelo de novo:
Nós dois caminhamos de mãos dadas
no meio de uma rua larga.
Estamos felizes.
Parecemos felizes.
Ao nosso redor
flutuam várias águas-vivas
e a gente acha aquilo muito bonito,
mas não estranho,
porque é sonho,
e dificilmente alguma coisa é estranha quando estamos dentro do sonho.

Daí,
começamos a ouvir um barulho alto e chato.
Algo que lembra o som que uma britadeira
faz.

Então, surge um carrão grotesco
que, veloz, corre em nossa direção.
Está perto demais.
A gente se olha
com um sorriso amarelo
e continua caminhando
ainda de mãos dadas.
Então, tudo fica em slow motion.
Estás linda.
Tu abres a boca para falar uma coisa muito importante - no sonho, eu sei que é importante -, mas não consegues.

Somos pegos em cheio.

O ar é
azul
preto
vermelho.

Ensaguentados,
ficamos deitados
no asfalto quente e molhado
daquela rua larga.

As águas-vivas são bonitas demais
e o céu está cheio delas. 

"How can you stop the rain from falling down?"


Lucas Kalleb



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