13 de abril de 2015

Não Dá



Há uma espécie de condenação social que paira sobre nós ao sentirmos medo, raiva e revolta diante da violência que nos sufoca. Somos pressionados a sentir apenas amor e compaixão pelos que matam, roubam e sorriem - sem amor e sem compaixão.
Afinal de contas, "somos vergonhosos por termos condições privilegiadas em relação aqueles 'pobres coitados'. Pare de julgá-los. Dê amor! Dê amor!", é o que nossos queridos irmãos intelectuais (?), bons de coração e hipócritas esbravejam nas nossas caras de otários; caras desprotegidas; caras cheias de tristeza e horror.
"O problema é a falta de educação de qualidade. O problema é a falta de educação de qualidade. O problema é...", e esse disco furado continua a tocar sem fim. Ok, a educação é uma das questões. Porém, não é só isso. Outra questão importante é essa: “Mas o que fazer enquanto ela, a educação, não melhora? Sermos bons garotos e garotas?"
A cada dia - me parece que sempre de forma mais intensa - somos tratados como meros coadjuvantes no cenário dos assaltos, dos homicídios e etc (quase como ser culpado por ser, em uma manhã ou noite qualquer, enviado para morar a sete palmos abaixo da terra, de forma absurda): os vilões e vítimas de verdade; os grandes, belos e frágeis protagonistas; os que merecem atenção especial – assim somos ensinados -, são "eles"; aqueles que não receberam as nossas “oportunidades”; aqueles que não têm nossos carros, motos e/ou bicicletas (riam); que “precisam” dos nossos celulares; que não gostaram da nossa aparência de “moradores de condomínios fechados"; que necessitam do nosso dinheiro – e, por vezes, da nossa vida – para comprar aquele tênis escroto e caro, e depois correr para aquela festa legal que vai rolar no próximo sábado (Coitadinhos. Só querem realizar um pequeno sonho); são eles. São eles. São eles!
Puta que o pariu.
Nós?!
Nós somos os desimportantes.
Roubados,
mortos,
queimados,
e culpados.
Acho que precisamos pedir perdão para esses seres sem razão de Ser.
Venham desgraçados.
Fiquem à vontade.
Nos Roubem.
Invadam nossas casas.
Nos matem.
Fiquem com o que é nosso.
Vocês já nasceram perdoados pelos meus irmãos idiotas que vos amam e vos dedicam louvores.
E aquele velho homem que disse que mataria - e conseguiu matar apenas um - os dois caras que estupraram a mulher dele, está preso atualmente.
Isso aí.
Preso!
O que farei agora? 
Vou tentar dormir
na expectativa de sonhar com um lugar mais lúcido
ou
menos cheio de gente morta;
sonhar com um lugar onde as coisas não parecem ser, de tão sem sentido, piadas - e daquelas sem graça;
Vou tentar sonhar com a lua.
Uma vez, dentro de um sonho,
sonhei que estava olhando para a lua.
Tão linda.
Tão maravilhosa.
Aí, ela foi ficando
mais perto de mim.
E uma voz, que pareceu vir de dentro da minha cabeça e me transbordar, disse:
"Olhar para a lua é olhar para casa".
É isso.  
Sonhos dentro de sonhos.
Vou dormir
para sonhar.
Então,
enquanto todos vocês
se devoram e se matam,
eu estarei
viajando pelo espaço.
Amém.

Lucas Kalleb

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