26 de maio de 2017

Hey!



Parei de publicar meus textos por aqui, mas você ainda pode me encontrar nesse endereço: 

https://pobredentepodre.wordpress.com

Até! 

15 de maio de 2016

DUAS PESSOAS QUE VI AQUI DE CIMA


Ricardo e Paula acabam de se esbarrar. A cidade onde moram é muito pequena e por isso as ruas são estreitas demais; igrejas, supermercados, casas, bares são minúsculos. Vocês não acreditariam. Todo mundo vive se esbarrando, e “Desculpa”, “Não tem problema”, “olha por onde anda” já não fazem sentido, as pessoas esbarram e pronto. Voltando aos dois, eles pararam, se voltaram e ficaram se olhando com aquela cara estranha de quem encontra alguém que foi muito importante em algum tempo já evaporado e que só aparece em raros sonhos vespertinos em salas de espera de clínicas médicas.
“Ooooi!”, Paula disse animada.
“Hey!”, Ricardo respondeu surpreso.
Paula começou a namorar há um mês com Rodrigo, um jovem estudante de jornalismo que ainda não tem certeza se gosta de meninos, meninas ou cães. Na noite passada, os dois fizeram sexo por quase duas horas, e pela primeira vez, Paula experimentou o orgasmo. Com outros caras, e até mesmo com Ricardo, com quem acaba de esbarrar, ela teve apenas a sensação de “quase-morte”, mas o indeciso Rodrigo conseguiu. Parabéns a ele. Então, nada mais justo do que aquela animação gritada no grande sorriso e bochechas vermelhas da Paula. Agora esqueçam o Rodrigo, por favor.
“Quanto tempo, né? O que tu tens feito?”, Paula pergunta, realmente interessada.
“O mesmo de sempre.”
Como eles ficaram parados no meio da rua, que tinha a largura de pouco mais de 10 palmos, a todo o momento eram atingidos por pessoas apressadas e o trânsito ficou congestionado.
“Hã?”
“Eu disse que o mesmo de sempre”, e então, o Ricardo perguntou sobre a vida dela e fez mais outras perguntas que as pessoas fazem quando não têm muita coisa para falar.
“E teus quadros? Continuas pintando, Ric?”
“Não tanto, mas continuo sim.”
As pessoas começaram a esbarrar neles de forma mais agressiva, com olhos vermelhos.
“Algo sobre mim?”
“Acho que devemos ir. Estamos atrapalhando a passagem. Faz meses que estou trabalhando em um quadro sobre um cachorro que vi morrer atropelado. De qualquer maneira, meus desenhos não têm importância”.
“Um dia foram importante pra mim, Ric. Tu gostavas de desenhar minhas orelhas.”
Apesar das buzinas dos carros furiosos, dos palavrões cuspidos e das batidas secas dos corpos naquela rua inacreditavelmente estreita, um silêncio absoluto pairou sobre aquele garoto e garota com sobras de sonhos mortos guardados em algum lugar do peito.
Por que ficaram ali parados se olhando feito idiotas? Queriam falar e ouvir coisas que já não podiam ser pronunciadas. Isso é pedir demais, convenhamos. Eles sabem disso.
Quatro policiais chegaram para resolver o problema do trânsito causado pelos nossos simpáticos personagens.
“Tchau, Ricardo.”
“Adeus.”
A rua está livre e tudo voltou ao normal novamente.
Pobres sonhos moles feito ovos crus.
      Pobres crianças apaixonadas.
      Pobre cão atropelado em 2011.

L.K.

12 de abril de 2016

Alô?


Oi, Alô? És tu? Kaio! Por que ligaste? Tu deixaste tão claro que me querias longe, que qualquer contato entre a gente era impossível, tinha que acabar. Foi escroto na última vez que nos vimos, eu sei. O Mauro chegou um pouco antes de ti em casa. Juro que não sabia que tu vinhas, juro. Se eu soubesse teria dado um jeito. Me senti a pior pessoa do mundo com toda aquela situação. Vocês dois tendo uma conversa seca com as caras amarradas. Fiquei sem ação, sem saber o que fazer. Aí tu foste embora e não atendeste mais nenhuma das minhas ligações depois. Não sabes o quanto tu tens feito falta. Eu te amo. Por que tu sumiste por tanto tempo e depois resolveste aparecer de surpresa em casa? Ah, sou uma escrota horrível. Será que quando deus me olha ele sente desprezo, nojo? Oro todas as noite para ele. Peço que me ajude a aguentar esses dias tão duros, tão grudentos e amarelados, mas sinto muita vergonha, entende? Não por eu ser pecadora, porque sei que deus perdoa pecados, mas é como se em cada oração eu estivesse mentindo, e eu e ele sabemos disso. O que tu achas de alguém que pede perdão sem querer pedir de verdade? É foda. Sim, sou cristã ainda, Kaio. Não sou a melhor pessoa do mundo, mas tenho fé ainda! Desculpa gritar assim, não estou nos meus melhores dias. Estou falando sem parar e quase não te dou espaço, mas é que fiquei com tanta coisa entalada bem aqui na garganta para te dizer. Como têm sido teus dias? Ah sim, continuas agarrado aos teus livros. Tens escrito sobre mim? haha, claro que adorei aqueles poemas que foram publicados no jornal. Sei que eram pra mim, não adianta negar. Os meus dias estão cheios de muito trabalho, nada de poesia. Domingo que vem vou naquela festa na casa da Ana. Ela disse que vais também. Tu vais, né? Não, claro que não vou levar o Mauro, e ele não é meu garoto, para de falar assim. A nossa relação está estranha, pesada. Tem dias que sinto vontade de matar aquele cachorro, e em outros sinto medo dele, como se soubesse que ele quer me matar também. Acho que ele anda comendo a vizinha do andar de baixo, aquela puta! Não, ainda não vi nada, mas tem alguma coisa no ar, tem sim. Será que estou enlouquecendo? Essa semana vou reencontrar um de meus irmãos que não vejo há sete anos, acredita? Ele está na cidade, espero que seja legal. Torce por mim, querido. Comprei um vinil semana passada. Sei o quanto gostas. Lembro daquele bar vagabundo onde tocava Raul, Belchior, Cazuza, tudo em vinil, que descobrimos por puro acaso e o quanto achaste massa o lugar. Ainda existe? Já faz tanto tempo. Vem escutar comigo qualquer dia, tá? É da Elis. Caí no banheiro ontem. Quis pedir ajuda,  mas decidi ficar quieta e esperar a dor amenizar, até porque não tinha uma viva alma por perto para ajudar. Ninguém se preocupa com as quedas individuais. Ninguém se preocupa comigo chorando no banheiro, caindo pela terceira vez no mês por conta de um desequilíbrio instalado e corroborado para o estado atual da minha alma. Tu ainda fumas? Não sei mais o que estou falando, só sei que estou atropelando qualquer possível nexo e coerência. Queria que não desligasses e continuasses falando comigo. Tem como essa ligação não acabar e se estender, se estender, se estender...? Não sei quando vais sumir, quando vais aparecer. Tá, desculpa. Sei que tens que desligar, tudo bem. Mas não deixa de ir na festa da Ana no domingo. Estarei lá te esperando. Beijo, meu bem.  
L.K.  

30 de janeiro de 2016

Lana



Ontem liguei pra Lana.
- E aê, senhorita.
- Oi.
- Estás bem?
- Sim.
- O que houve?
- Nada.
- Hum. O que achas de nos vermos hoje?
- Porra, André, tu és foda! Some e aparece do nada querendo boceta. Pensa que tu é algum picão das galáxias, é? – ela gritou, e depois caiu em uma risada debochada.
- Tive uns problemas. Não estava na cidade, e meu celular não estava comigo. Cheguei ontem.
- Sempre cheio de historinhas. Tem alguém que acredita? Olha, a Paula vem pra cá hoje, então, acho melhor não – Paula era a nova namorada dela. Se conheceram no banheiro de um shopping.
- Ah, tudo bem, então. Deixa para outra vez.
- É.
- Tchau?
- Tchau!
Fui pra sala e liguei a tv. Estava passando um programa bobo apresentado pela Angélica. Eu era fascinado por ela quando criança. Dizia para todo mundo:
“É minha namorada.”
E alguns dos meus amiguinhos até chegavam a acreditar. Eu acreditava.
Após 10 minutos, meu celular tocou.
- E aí, Lana.
- Oi.
- Aconteceu algo?
- Eu já dei uma desculpa para a Paula. Ainda queres aparecer?
- Às 20 estou por aí.
- Tá.
Cheguei, bebemos cerveja (é legal encontrar mulheres que gostam de cerveja. A maioria diz aquela frase enlatada: “Não gosto. Só destilado.”) e depois ela bolou um fumo delicioso. Estava tocando B. B. King no home theater. Perguntei se ela queria dançar um pouco. “Tenta não pisar no meu pé como sempre”, e eu disse que tentaria. Rimos. Dançamos abraçados quase sem sair do lugar, apenas sentindo o calor do corpo um do outro. 
Mas então, um fedor forte invadiu minhas narinas. Parecia caldo de peixe cozido esquecido na panela por uns três dias. Estava vindo dela. Não aguentei e me desvencilhei de seus braços.
- Estás sentindo?
- O quê?
- Esse fedor escroto. Não acredito que não estás sentindo.
Levantou os dois braços de uma só vez, e cheirou ambos. As axilas dela estavam negras de pelos.
- O que é isso aí?
- São pelos. Algum problema?
- Olha...
- Porra, tu estraga tudo sempre. Preparo essa noite para nós dois, compro a cerveja que tu gostas, mando a porra da Paula passear, e é isso que tu faz.
- O quê? Não é nada disso, calma.
- Sabe o que é isso aqui?! – Ela pergunta apontando os dois indicadores para as axilas, formando quase um “8” deitado - É EMPODERAMENTO!
- Não importa. Está tudo bem.
- Não importa? Muito fácil pra ti como homem, integrante dessa sociedade patriarcal, falar isso. Só quero dizer que não-sou-obrigada, filho!
- Hã? Eu não disse...
- Com esse cabelo aqui me sinto mais livre e plena, sem a necessidade de raspar, coisa que agride muito a pele. Além do mais, se tu não sabes, os pelos são uma defesa natural do corpo.
Realmente, aquele cheiro era uma defesa contra qualquer tipo de aproximação.
- Calma, Lana. Não precisa gritar, ok?
- Muito conveniente querer calar a voz de uma mulher, né? Quer dizer que homem pode ter pelo no sovaco e mulher não?
- Eu não disse que tu eras obrigada ou algo assim, tá bom? Espera, deixa eu falar. Não tem problema nenhum tu deixares esse cabelinho crescer. Mas eu particularmente não curto muito, tanto que até raspo, tá vendo? Ó? Mas não tem problema, entendeu?
- Como assim “não tem problema”? – Ela perguntou com os olhos vermelhos brilhantes de quem está prestes a desabar em lágrimas.
- Era para eu dizer que tem problema? Era para eu me incomodar? Isso mesmo que tu ouviste: não tem, Lana. Use e seja feliz.
Ela começou a chorar pra valer. Chorou, chorou e chorou. Puta merda, o que eu estava fazendo ali?
- Eu sou uma boba, né? Me desculpa mesmo, André. Acho que é por isso que somes. Sou doida. Nem sei o que deu em mim. Foi a Paula que ficou colocando essas coisas na minha cabeça.
- Tudo bem. Faz assim: a gente esquece que isso aconteceu. Olha, acho que está na minha hora. A gente pode conversar depois? É que amanhã vai ser um dia cheio.
- Não, não. Fica! Espera um pouco.
Foi ao banheiro e ficou uns três ou cinco minutos lá. Voltou nua, e ficou parada com um barbeador cheio de pelos na mão, sorrindo. Deixou o instrumento que faz os pelos sumirem sobre o criado–mudo e veio na minha direção. Nos abraçamos. Ela completamente nua e eu vestido, inclusive usando meias e sapatos. O odor não havia sumido, porém estava mais ameno, suportável. Dançamos mais um pouco. Depois a levei para a cama, passei minha boca por todo seu corpo, mas quando cheguei na boceta, puta que o pariu, estava cheia de pontos de sangue e com vários fiapos de cabelo, principalmente onde terminam as coxas e começa a virilha. Parecia o rosto do meu velho pai barbeado às pressas. Me senti triste por ela, ou por todas elas, por todas as outras Lanas cheias de coisas na cabeça.
- Lana, desculpa, mas tenho que ir mesmo. Dia cheio amanhã.
Ela me olhou com uma expressão indefinível, mistura de incredulidade e raiva ou outra coisa, mas não falou nada. Quando cheguei na rua, ela gritou da janela:
- Filho da puta machista de merda! Vai tomar no cu! Sou livre, sou livre para escolher!
Não fui para casa. Fui a um bar e fiquei ali algum tempo. Não tinha ninguém além do garçom, um casal de velhos e uma mulher gorda e bonita que sorriu pra mim. Sorri de volta. Trouxeram minha bebida e tomei o primeiro gole pensando naquele tempo em que eu era um garoto que dizia para todo mundo que a Angélica era minha namorada.

L. K. 

23 de dezembro de 2015

Não-Violência


Ontem à tarde havia uma aranha 
em uma das paredes do meu quarto,
bem perto da minha cama.
Era pequenina, escura e feia.
Aprendi a não gostar de aranhas desde cedo, 
assim como de lagartixas, moscas e baratas.
Peguei a coisa mais próxima da minha mão para 
usar como arma,
e PUAAAAÁ!, matei a coitada.
A arma foi uma biografia do Mahatma Gandhi 
escrita pelo Humberto Rohden.
Achei de uma puta ironia.

Lucas Kalleb

13 de dezembro de 2015

Sarau


Não curto ir a saraus. Nas poucas vezes que fui, experimentei uma espécie de esvaziamento. Ver pessoas reunidas, apertadas, quase amontoadas, de olhos voltados para outras pessoas que, sem escrúpulos, vomitam pseudo-genialidade antes de serem aplaudidas com fervor religioso, me deixa nauseado. Se não fosse pela habitual presença da Cantina da Serra nesses lugares seria o fim da picada. Escrever um poema presunçoso e se achar o rei da cocada preta por isso, é se marturbar. Agora, escrever o tal poema e ler em um sarau, onde há a certeza do louvor – mesmo que fingido –, é ser masturbado. Punheta, ciririca e até curirica.    

Em uma das vezes que fui a um sarau, um cara sentado ao meu lado levantou a mão para o alto, indicando que tinha uma performance artística para apresentar. Pronto: lá estava ele no centro de todos os olhos. Começou a pular: uma, duas, três vezes. E a cada pulo, urrava palavras como amor, deus e tecnologia. Então, ficou de cócoras e disse bem alto:

“O eterno é aquilo que se repete! O eterno é aquilo que se repete! Está se repetindo diante do banal. Está! repetição! O cu nada mais é do que uma boca que não aprendeu a sorrir. O tabu foi quebrado. Os peixes e macaquinhos estão assustados com a nossa desumanidade. Só há dor. Sintam, sintam, sintam. Isso não passa de repetição!”.

Levantou suado, agradeceu e foi bastante aplaudido, com direito a gritos e tudo. “Parabéns, cara!”, “É isso aê!”, “Falou tudo!”. Pura besteira. Agora entendes o que quero dizer? Lugares assim fazem um mal danado para a alma e para o fígado. Mas se, como eu, tu não conseguires salvar o fígado, tenta salvar a alma. Eu tento.

Para que masturbação quando dá para foder? 

Lucas Kalleb  

8 de outubro de 2015

É, a cor


- Qual a cor do teu dia, Jéssica?
- A cor?
- É.
- Azul, eu acho. E o teu?
- A maior parte tá cinza, mas dá pra ver uns raios verdes riscados nele.
- Isso não é tão bom, ou é?
- Não muito. Mas até que está simpático.
- Como assim? Tu estás bem?
- Tem tristeza que é bonita, sabe. Então, quando ela aparece pra gente chega quase a ser bom ficar triste. Cinza e verde, essas são as cores de hoje. Quer fazer alguma coisa?
- Não gosto de te ver assim, Felipe. Me espera que vou passar aí, tá?

(L. K.)