30 de janeiro de 2016

Lana



Ontem liguei pra Lana.
- E aê, senhorita.
- Oi.
- Estás bem?
- Sim.
- O que houve?
- Nada.
- Hum. O que achas de nos vermos hoje?
- Porra, André, tu és foda! Some e aparece do nada querendo boceta. Pensa que tu é algum picão das galáxias, é? – ela gritou, e depois caiu em uma risada debochada.
- Tive uns problemas. Não estava na cidade, e meu celular não estava comigo. Cheguei ontem.
- Sempre cheio de historinhas. Tem alguém que acredita? Olha, a Paula vem pra cá hoje, então, acho melhor não – Paula era a nova namorada dela. Se conheceram no banheiro de um shopping.
- Ah, tudo bem, então. Deixa para outra vez.
- É.
- Tchau?
- Tchau!
Fui pra sala e liguei a tv. Estava passando um programa bobo apresentado pela Angélica. Eu era fascinado por ela quando criança. Dizia para todo mundo:
“É minha namorada.”
E alguns dos meus amiguinhos até chegavam a acreditar. Eu acreditava.
Após 10 minutos, meu celular tocou.
- E aí, Lana.
- Oi.
- Aconteceu algo?
- Eu já dei uma desculpa para a Paula. Ainda queres aparecer?
- Às 20 estou por aí.
- Tá.
Cheguei, bebemos cerveja (é legal encontrar mulheres que gostam de cerveja. A maioria diz aquela frase enlatada: “Não gosto. Só destilado.”) e depois ela bolou um fumo delicioso. Estava tocando B. B. King no home theater. Perguntei se ela queria dançar um pouco. “Tenta não pisar no meu pé como sempre”, e eu disse que tentaria. Rimos. Dançamos abraçados quase sem sair do lugar, apenas sentindo o calor do corpo um do outro. 
Mas então, um fedor forte invadiu minhas narinas. Parecia caldo de peixe cozido esquecido na panela por uns três dias. Estava vindo dela. Não aguentei e me desvencilhei de seus braços.
- Estás sentindo?
- O quê?
- Esse fedor escroto. Não acredito que não estás sentindo.
Levantou os dois braços de uma só vez, e cheirou ambos. As axilas dela estavam negras de pelos.
- O que é isso aí?
- São pelos. Algum problema?
- Olha...
- Porra, tu estraga tudo sempre. Preparo essa noite para nós dois, compro a cerveja que tu gostas, mando a porra da Paula passear, e é isso que tu faz.
- O quê? Não é nada disso, calma.
- Sabe o que é isso aqui?! – Ela pergunta apontando os dois indicadores para as axilas, formando quase um “8” deitado - É EMPODERAMENTO!
- Não importa. Está tudo bem.
- Não importa? Muito fácil pra ti como homem, integrante dessa sociedade patriarcal, falar isso. Só quero dizer que não-sou-obrigada, filho!
- Hã? Eu não disse...
- Com esse cabelo aqui me sinto mais livre e plena, sem a necessidade de raspar, coisa que agride muito a pele. Além do mais, se tu não sabes, os pelos são uma defesa natural do corpo.
Realmente, aquele cheiro era uma defesa contra qualquer tipo de aproximação.
- Calma, Lana. Não precisa gritar, ok?
- Muito conveniente querer calar a voz de uma mulher, né? Quer dizer que homem pode ter pelo no sovaco e mulher não?
- Eu não disse que tu eras obrigada ou algo assim, tá bom? Espera, deixa eu falar. Não tem problema nenhum tu deixares esse cabelinho crescer. Mas eu particularmente não curto muito, tanto que até raspo, tá vendo? Ó? Mas não tem problema, entendeu?
- Como assim “não tem problema”? – Ela perguntou com os olhos vermelhos brilhantes de quem está prestes a desabar em lágrimas.
- Era para eu dizer que tem problema? Era para eu me incomodar? Isso mesmo que tu ouviste: não tem, Lana. Use e seja feliz.
Ela começou a chorar pra valer. Chorou, chorou e chorou. Puta merda, o que eu estava fazendo ali?
- Eu sou uma boba, né? Me desculpa mesmo, André. Acho que é por isso que somes. Sou doida. Nem sei o que deu em mim. Foi a Paula que ficou colocando essas coisas na minha cabeça.
- Tudo bem. Faz assim: a gente esquece que isso aconteceu. Olha, acho que está na minha hora. A gente pode conversar depois? É que amanhã vai ser um dia cheio.
- Não, não. Fica! Espera um pouco.
Foi ao banheiro e ficou uns três ou cinco minutos lá. Voltou nua, e ficou parada com um barbeador cheio de pelos na mão, sorrindo. Deixou o instrumento que faz os pelos sumirem sobre o criado–mudo e veio na minha direção. Nos abraçamos. Ela completamente nua e eu vestido, inclusive usando meias e sapatos. O odor não havia sumido, porém estava mais ameno, suportável. Dançamos mais um pouco. Depois a levei para a cama, passei minha boca por todo seu corpo, mas quando cheguei na boceta, puta que o pariu, estava cheia de pontos de sangue e com vários fiapos de cabelo, principalmente onde terminam as coxas e começa a virilha. Parecia o rosto do meu velho pai barbeado às pressas. Me senti triste por ela, ou por todas elas, por todas as outras Lanas cheias de coisas na cabeça.
- Lana, desculpa, mas tenho que ir mesmo. Dia cheio amanhã.
Ela me olhou com uma expressão indefinível, mistura de incredulidade e raiva ou outra coisa, mas não falou nada. Quando cheguei na rua, ela gritou da janela:
- Filho da puta machista de merda! Vai tomar no cu! Sou livre, sou livre para escolher!
Não fui para casa. Fui a um bar e fiquei ali algum tempo. Não tinha ninguém além do garçom, um casal de velhos e uma mulher gorda e bonita que sorriu pra mim. Sorri de volta. Trouxeram minha bebida e tomei o primeiro gole pensando naquele tempo em que eu era um garoto que dizia para todo mundo que a Angélica era minha namorada.

L. K. 

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