Oi, Alô? És tu?
Kaio! Por que ligaste? Tu deixaste tão claro que me querias longe, que
qualquer contato entre a gente era impossível, tinha que acabar. Foi escroto na
última vez que nos vimos, eu sei. O Mauro chegou um pouco antes de ti em casa. Juro
que não sabia que tu vinhas, juro. Se eu soubesse teria dado um jeito. Me senti
a pior pessoa do mundo com toda aquela situação. Vocês dois tendo uma conversa
seca com as caras amarradas. Fiquei sem ação, sem saber o que fazer. Aí tu
foste embora e não atendeste mais nenhuma das minhas ligações depois. Não sabes
o quanto tu tens feito falta. Eu te amo. Por que tu
sumiste por tanto tempo e depois resolveste aparecer de surpresa em casa? Ah,
sou uma escrota horrível. Será que quando deus me olha ele sente desprezo,
nojo? Oro todas as noite para ele. Peço que me ajude a aguentar esses dias tão
duros, tão grudentos e amarelados, mas sinto muita vergonha, entende? Não por
eu ser pecadora, porque sei que deus perdoa pecados, mas é como se em cada
oração eu estivesse mentindo, e eu e ele sabemos disso. O que tu achas de
alguém que pede perdão sem querer pedir de verdade? É foda. Sim, sou cristã ainda, Kaio. Não sou a melhor pessoa do mundo, mas tenho fé ainda!
Desculpa gritar assim, não estou nos meus melhores dias. Estou falando sem
parar e quase não te dou espaço, mas é que fiquei com tanta coisa
entalada bem aqui na garganta para te dizer. Como têm sido teus dias? Ah sim, continuas
agarrado aos teus livros. Tens escrito sobre mim? haha, claro que adorei
aqueles poemas que foram publicados no jornal. Sei que eram pra mim, não adianta negar. Os meus
dias estão cheios de muito trabalho, nada de poesia. Domingo que vem vou
naquela festa na casa da Ana. Ela disse que vais também. Tu vais, né? Não, claro
que não vou levar o Mauro, e ele não é meu garoto, para de falar assim. A nossa
relação está estranha, pesada. Tem dias que sinto vontade de matar aquele
cachorro, e em outros sinto medo dele, como se soubesse que ele quer me matar
também. Acho que ele anda comendo a vizinha do andar de baixo, aquela puta!
Não, ainda não vi nada, mas tem alguma coisa no ar, tem sim. Será que estou
enlouquecendo? Essa semana vou reencontrar um de meus irmãos que não vejo há
sete anos, acredita? Ele está na cidade, espero que seja legal. Torce por mim,
querido. Comprei um vinil semana passada. Sei o quanto gostas. Lembro daquele
bar vagabundo onde tocava Raul, Belchior, Cazuza, tudo em vinil, que
descobrimos por puro acaso e o quanto achaste massa o lugar. Ainda existe? Já faz
tanto tempo. Vem escutar comigo qualquer dia, tá? É da Elis. Caí no banheiro ontem. Quis
pedir ajuda, mas decidi ficar quieta e
esperar a dor amenizar, até porque não tinha uma viva alma por perto para
ajudar. Ninguém se preocupa com as quedas individuais. Ninguém se preocupa
comigo chorando no banheiro, caindo pela terceira vez no mês por conta de um
desequilíbrio instalado e corroborado para o estado atual da minha alma. Tu
ainda fumas? Não sei mais o que estou falando, só sei que estou atropelando
qualquer possível nexo e coerência. Queria que não desligasses e continuasses
falando comigo. Tem como essa ligação não acabar e se estender, se
estender, se estender...? Não sei quando vais sumir, quando vais aparecer.
Tá, desculpa. Sei que tens que desligar, tudo bem. Mas não deixa de ir na festa
da Ana no domingo. Estarei lá te esperando. Beijo, meu bem.
L.K.

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