12 de abril de 2016

Alô?


Oi, Alô? És tu? Kaio! Por que ligaste? Tu deixaste tão claro que me querias longe, que qualquer contato entre a gente era impossível, tinha que acabar. Foi escroto na última vez que nos vimos, eu sei. O Mauro chegou um pouco antes de ti em casa. Juro que não sabia que tu vinhas, juro. Se eu soubesse teria dado um jeito. Me senti a pior pessoa do mundo com toda aquela situação. Vocês dois tendo uma conversa seca com as caras amarradas. Fiquei sem ação, sem saber o que fazer. Aí tu foste embora e não atendeste mais nenhuma das minhas ligações depois. Não sabes o quanto tu tens feito falta. Eu te amo. Por que tu sumiste por tanto tempo e depois resolveste aparecer de surpresa em casa? Ah, sou uma escrota horrível. Será que quando deus me olha ele sente desprezo, nojo? Oro todas as noite para ele. Peço que me ajude a aguentar esses dias tão duros, tão grudentos e amarelados, mas sinto muita vergonha, entende? Não por eu ser pecadora, porque sei que deus perdoa pecados, mas é como se em cada oração eu estivesse mentindo, e eu e ele sabemos disso. O que tu achas de alguém que pede perdão sem querer pedir de verdade? É foda. Sim, sou cristã ainda, Kaio. Não sou a melhor pessoa do mundo, mas tenho fé ainda! Desculpa gritar assim, não estou nos meus melhores dias. Estou falando sem parar e quase não te dou espaço, mas é que fiquei com tanta coisa entalada bem aqui na garganta para te dizer. Como têm sido teus dias? Ah sim, continuas agarrado aos teus livros. Tens escrito sobre mim? haha, claro que adorei aqueles poemas que foram publicados no jornal. Sei que eram pra mim, não adianta negar. Os meus dias estão cheios de muito trabalho, nada de poesia. Domingo que vem vou naquela festa na casa da Ana. Ela disse que vais também. Tu vais, né? Não, claro que não vou levar o Mauro, e ele não é meu garoto, para de falar assim. A nossa relação está estranha, pesada. Tem dias que sinto vontade de matar aquele cachorro, e em outros sinto medo dele, como se soubesse que ele quer me matar também. Acho que ele anda comendo a vizinha do andar de baixo, aquela puta! Não, ainda não vi nada, mas tem alguma coisa no ar, tem sim. Será que estou enlouquecendo? Essa semana vou reencontrar um de meus irmãos que não vejo há sete anos, acredita? Ele está na cidade, espero que seja legal. Torce por mim, querido. Comprei um vinil semana passada. Sei o quanto gostas. Lembro daquele bar vagabundo onde tocava Raul, Belchior, Cazuza, tudo em vinil, que descobrimos por puro acaso e o quanto achaste massa o lugar. Ainda existe? Já faz tanto tempo. Vem escutar comigo qualquer dia, tá? É da Elis. Caí no banheiro ontem. Quis pedir ajuda,  mas decidi ficar quieta e esperar a dor amenizar, até porque não tinha uma viva alma por perto para ajudar. Ninguém se preocupa com as quedas individuais. Ninguém se preocupa comigo chorando no banheiro, caindo pela terceira vez no mês por conta de um desequilíbrio instalado e corroborado para o estado atual da minha alma. Tu ainda fumas? Não sei mais o que estou falando, só sei que estou atropelando qualquer possível nexo e coerência. Queria que não desligasses e continuasses falando comigo. Tem como essa ligação não acabar e se estender, se estender, se estender...? Não sei quando vais sumir, quando vais aparecer. Tá, desculpa. Sei que tens que desligar, tudo bem. Mas não deixa de ir na festa da Ana no domingo. Estarei lá te esperando. Beijo, meu bem.  
L.K.  

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