15 de maio de 2016

DUAS PESSOAS QUE VI AQUI DE CIMA


Ricardo e Paula acabam de se esbarrar. A cidade onde moram é muito pequena e por isso as ruas são estreitas demais; igrejas, supermercados, casas, bares são minúsculos. Vocês não acreditariam. Todo mundo vive se esbarrando, e “Desculpa”, “Não tem problema”, “olha por onde anda” já não fazem sentido, as pessoas esbarram e pronto. Voltando aos dois, eles pararam, se voltaram e ficaram se olhando com aquela cara estranha de quem encontra alguém que foi muito importante em algum tempo já evaporado e que só aparece em raros sonhos vespertinos em salas de espera de clínicas médicas.
“Ooooi!”, Paula disse animada.
“Hey!”, Ricardo respondeu surpreso.
Paula começou a namorar há um mês com Rodrigo, um jovem estudante de jornalismo que ainda não tem certeza se gosta de meninos, meninas ou cães. Na noite passada, os dois fizeram sexo por quase duas horas, e pela primeira vez, Paula experimentou o orgasmo. Com outros caras, e até mesmo com Ricardo, com quem acaba de esbarrar, ela teve apenas a sensação de “quase-morte”, mas o indeciso Rodrigo conseguiu. Parabéns a ele. Então, nada mais justo do que aquela animação gritada no grande sorriso e bochechas vermelhas da Paula. Agora esqueçam o Rodrigo, por favor.
“Quanto tempo, né? O que tu tens feito?”, Paula pergunta, realmente interessada.
“O mesmo de sempre.”
Como eles ficaram parados no meio da rua, que tinha a largura de pouco mais de 10 palmos, a todo o momento eram atingidos por pessoas apressadas e o trânsito ficou congestionado.
“Hã?”
“Eu disse que o mesmo de sempre”, e então, o Ricardo perguntou sobre a vida dela e fez mais outras perguntas que as pessoas fazem quando não têm muita coisa para falar.
“E teus quadros? Continuas pintando, Ric?”
“Não tanto, mas continuo sim.”
As pessoas começaram a esbarrar neles de forma mais agressiva, com olhos vermelhos.
“Algo sobre mim?”
“Acho que devemos ir. Estamos atrapalhando a passagem. Faz meses que estou trabalhando em um quadro sobre um cachorro que vi morrer atropelado. De qualquer maneira, meus desenhos não têm importância”.
“Um dia foram importante pra mim, Ric. Tu gostavas de desenhar minhas orelhas.”
Apesar das buzinas dos carros furiosos, dos palavrões cuspidos e das batidas secas dos corpos naquela rua inacreditavelmente estreita, um silêncio absoluto pairou sobre aquele garoto e garota com sobras de sonhos mortos guardados em algum lugar do peito.
Por que ficaram ali parados se olhando feito idiotas? Queriam falar e ouvir coisas que já não podiam ser pronunciadas. Isso é pedir demais, convenhamos. Eles sabem disso.
Quatro policiais chegaram para resolver o problema do trânsito causado pelos nossos simpáticos personagens.
“Tchau, Ricardo.”
“Adeus.”
A rua está livre e tudo voltou ao normal novamente.
Pobres sonhos moles feito ovos crus.
      Pobres crianças apaixonadas.
      Pobre cão atropelado em 2011.

L.K.

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