Artur
está sentado à mesa com cinco outras pessoas. Com exceção da Júlia, sua nova
namorada, elas são desconhecidas para ele, e ele é para elas.
“Jesus! Quem matou cachorro?!”, quer saber exasperada a
matriarca da casa, com a mão direita tapando o nariz.
Artur, sem pressa, já esperando o pior, olha a sola do pé
esquerdo. Tudo limpo, ufa! Então, olha a do direito. Argh! Droga! Corado,
adiando o máximo que pode, levanta os olhos para a platéia de expressões
suspensas voltadas para ele, e abre o riso frouxo
dos culpados, culpados por acidente.
O
fedor arranha as paredes do insuportável, e todos continuam parados sem saber
qual o próximo passo, até que:
“Ju, leva o menino pra lavar o sapato”, pede o pai da Júlia
apontando desesperado para a porta dos fundos da casa.
Quando o assassino levanta e sai, se desculpando sempre, todos
voltam a respirar. Melhor, bem melhor.
Artur volta não querendo voltar, com os sapatos molhados e senta
novamente, com Júlia ao seu lado sorrindo, tentando fingir que nada tinha
acontecido. As outras pessoas estão sérias. Pai, mãe, avó e tia. Nada de cara
fechada, sérias apenas. A ceia quase não teve muito sabor - isso se deve, que
fique claro, menos ao preparo realizado pela avó, e mais ao assassinato do cão.
“Está deliciosa, dona Maltilde”, diz Artur. A velha pisca três
vezes para ele e volta a chupar um osso de coxa de galinha.
O restante da noite foi silencioso, desconsiderando-se o som dos
talheres batendo nos pratos, as bocas mastigando e ossos sendo chupados.

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