8 de setembro de 2015

Nandinha


Minha mãe me ensinou que é feio escutar conversas atrás da porta. Sei disso, mãe, mas estou escutando agora porque é mais forte que eu, dessa vez não pude resistir.  
Gosto muito da minha prima Nandinha, gosto mesmo. Queria até casar com ela. Tem 17 anos, só 6 mais que eu. Uma vez perguntei "Nandinha, se um dia eu tivesse muito dinheiro e pedisse para tu morar comigo, tu aceitaria?", aí ela me olhou com aquela cara meio séria meio distraída dela e disse "Claro, moleque. Mas só se for muito dinheiro mesmo hein!", e desatou  a dar risadas gostosas e me atacar com cócegas. Mas agora aqui atrás da porta do quarto da Nandinha, tô sentindo uma angústiazinha, uma vontade de chorar, de chorar pra valer, tipo na vez que a avó me bateu porque eu joguei pedra em um carro que estava passando na rua (no dia que apanhei chorei mesmo, não foi só vontade não). Nandinha está dentro do quarto com o Jorge. Eu odeio esse cara, odeio. O pastor sempre fala que a gente não pode ter sentimentos ruins no coração, mas só coisas boas. Não consigo, não consigo, pastor. Só de saber que a Nandinha tá dentro desse quarto com ele me dá muita agonia. O pior é que ela conheceu o cara semana passada e agora ele já acha que tem o direito de ficar zanzando por aqui o tempo todo. Ficam lá trancados. A tia não gosta muito, mas deixa. O Jorge tem mais de 20 anos e com as roupas e a barba feia que usa parece aquele mendigo que mora em uma esquina perto da minha escola. Muito parecido mesmo, só tu vendo. Faz três ou quatro dias que vi uma coisa muito nojenta que o Jorge fez: enquanto a Nandinha estava na cozinha preparando pipoca, ele meteu o dedo no nariz e depois colocou na boca. Saí correndo para o meu quarto. Credo, credo, credo! Esse cara é podre, e agora está no quarto da Nandinha e eu estou aqui atrás da porta. Minha mãe foi para Manaus quando eu tinha seis anos. Disse que iria trazer muitos presentes quando voltasse. Mas tá demorando mãe. Não precisa trazer mais nada, só quero que a senhora volte. Por favor, promete que vem logo. Ai, eu tô ficando com os olhos cada vez mais ardidos, tipo a tia quando fica cortando cebolas. Depois que minha mãe entrou naquele avião grandão, fiquei morando na casa da tia, mãe da Nandinha. Marcela o nome dela. Meu pai eu nunca vi, só escuto histórias sobre ele, mas não acredito que são tão verdadeiras quando escuto. Nandinha também não tem pai. Então, aqui em casa somos eu, a tia, Nandinha e a avó, que anda esquecendo até meu nome, acredita? Uma frase que ela sempre repete é "Arnaldo, já comprou a carne de domingo?". Fala isso quase todos os dias, fala isso para o nada, para o vento, para a chuva, para a tv, para a madrugada. Ninguém aqui em casa nunca ouviu falar de alguém com esse nome. Nandinha e Jorge quase não fazem barulho dentro do quarto. Só dá para ouvir umas risadinhas e pedacinhos de conversas bestas. "Mas tu foste lá?", "Claro que sim", "haha", "Queria ver a cara daquela vaquinha", "Não fala isso", "Vem calar minha boca então, vem!". Eu estava quase desistindo de ficar ali atrás da porta, mas aí o Jorge, depois de ficarem sem fazer qualquer barulho por um tempão, começou uma conversa estranha:                                                                                                                E aí?

O quê?

Vai me enrolar de novo, né?

Não, não. Para de drama, Gê.

Mas é que estou quase explodindo, Nandinha, tu entende o que quero dizer?

Sério? Caramba, então tem muito guardado pra mim aí é?

(risadas)

Não faz barulho, Gê.

Por que não? A tua mãe saiu e aquela velha não sai da frente da tv por nada.

Não fala assim. Além do mais tem o Pedrinho, pô.

Tá, tá, mas ele deve estar metido naquelas revistinhas dele agora. Vem logo.

Tu nem respondeu: tem muito pra mim?

Olha, já faz dois dias que não me alivio só te esperando.

Nossa, então, vou matar minha sede hoje.

Acho que vai sair uns dez jatos pelo menos.

(mais risadas nojentas)

Coloca ele pra fora, coloca, Gê. Isso. Durinho já, né? Afasta um pouco mais as pernas...

Hum...isso...arh...

Tá bom?

Hum...O quê?  Hum...hum...

Perguntei se tá bom assim como eu tô fazen...

Não para, não para. Ai, assim. Super bom. Super. Muito...muito.

...

Só baba um pouco mais. Isso. Hum...caralho, porra! Assim. Ai, ai, cuidado com o dente.

...Hum? Dente? Ah, desculpinha.

Vai, vai. Língua! Isso. Não para, por favor. Assim, assim. Ahrg! Está quase chegan... ah... fica colocando na garganta agora, é...isso...arrrgh...Puta que o pariu! Rápido, vai, mais rápido. Empurra tudo pra dentro, tá quase...am...Nandin...aaaahhh......vai, vai, vai...agora, agora! Aaaahhhhh, caralho! Ah, Nandinha!

Ufa, Gê, rapidão hoje! Tinha bastante mesmo. Tu me sujou todinha, olha! Me ajuda a levantar aqui, meus joelhos estão doendo pra caramba. Me dá essa toalha para eu me limpar. Obrigada.

Foi bom demais, Nandinha. Estás cada vez melhor.

Não é só tu que diz. Treino bastante.

Muitos caras?

Claro que não, bobo. Só no meu namorado mesmo.

Ah, sim, aquele corninho viado.

Já disse pra ti não falar dele assim. Amo o Lipe, amo.

Tá bom, tá bom. Mas ele mata a tua sede como eu?

Ai, para. Claro que não. Sabes que beber, beber mesmo, é só o teu, né?

É, acho que sim.

Olha, tu tem que ir agora. O Lipe está chegando daqui a pouco. Bora vem, sério...

Mais dez minutos...

(risadas)

          Estou no meu quarto agora. Foi horrível ouvir todas aquelas coisas, horrível. Estou sentindo uma dor dentro do meu peito, parece que tem um porco – espinho se mexendo dentro dele. Não vou chorar, não vou. Mundo, por que você tinha que ser tão ruim comigo? Nandinha, quando eu tiver muito dinheiro e pedir para morares comigo, por favor, pelo amor de deus, não aceita, nunca, nunca, nunca. Desgraçados filhos da puta! Sei que é errado chamar palavrão, mãe, mas não deu para evitar. Por que a senhora não está aqui, mãe? Não gosta de mim? Não me ama? Sabe o que é ficar com os olhos ardidos e não ter a senhora aqui perto para me abraçar? Mãe, mãe, mãe!
Lucas Kalleb    

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