Toda vez que falo com a Clarinha por telefone, e não entendo alguma coisa que disse, por ela falar meio baixo ou por estar comendo alguma coisa - é, tem hora que parece que ela tá comendo enquanto fala -, digo: “Como? Não entendi. Repete”. Aí, ela repete, porém mais baixo e enrolado que antes, tipo um bêbado sussurrando. Então, dou uma risada meio forçada, e a gente prossegue na conversa como se eu tivesse entendido a coisa que ela disse. Mas a verdade, é que para mim ela falou em grego ou em hebraico. Será que ela acha que essa merda fica erótica?
Hoje ela me perguntou, depois da minha típica
risada amarela e azul: “Tu não gostas de sussurros?”. “É pra gostar,
Clarinha?”, respondi. Ela ficou calada, com a respiração meio barulhenta.
Fiquei imaginando quanto de catarro tinha naquele nariz. "Tá tudo
bem?", perguntei. Ela riu depois de uma tossida, e disse que estava sim.
Prosseguimos na conversa sobre o dilema que ela estava enfrentando nos últimos
dois dias: dar o cu para o carinha que conheceu na aula de inglês que parece o
PC Siqueira, sim ou não?
Não sei o motivo de eu ainda atender pessoas
como ela. Eu deveria apenas deixar o telefone tocar, tocar, tocar e tocar, até
ele parar. Aí, talvez quem ligasse pensaria que eu devia ter mudado de endereço
ou falecido, e finalmente desistiria da ideia de atormentar minha vida. Só não
cancelo a linha telefônica e jogo o celular fora porque vez ou outra rolam umas
emergências escrotas, tipo naquele dia em que o meu apartamento quase pega
fogo.
"Mas tu não achas que eu vou parecer meio
vaca fazendo isso?". "Vaca? Que nada.", eu disse. "Faz
menos de uma semana que conheço ele, e já vou mostrar meu buraquinho. Tenho
medo de parecer piranha". "Não esquenta, Clarinha. Primeiro que o teu
'buraquinho' já foi bastante maltratado para ser penas 'buraquinho'. E outra
coisa: o mundo já mudou muito. Não existe mais essa ideia na cabeça de ninguém.
E ainda há a possibilidade de nascer um sentimento depois de o moleque trabalhar
nessa tua fonte de merda". Ela gargalhou e disse: "Credo, não fala
assim, migo. Mas tu achas mesmo?". "Claro", eu respondi.
"Ai, brigado pelos teus conselhos. brigado por sempre me ouvir".
"Só quero ajudar, Clarinha. Agora tenho que ir. Boa sorte com o
cara". "Tá bom, migo. Te adoro".
Desliguei o telefone prometendo a mim
mesmo jamais voltar a conversar com aquela puta. Porém, nunca funciona.
Sempre é a mesma coisa. Tento evitá-la ao máximo, mas ela sempre arranja um
jeito de me achar e me apresentar um novo dilema. No final do ano passado, fez
uma suruba a quatro no apê de um brother meu. Que cu insaciável! E
enquanto a parada estava rolando, o ex-namorado dela liga pra mim e pra mais
uma porrada de gente, dizendo que não sabia mais o que fazer, e
que tinha decidido ligar para todo mundo que conhecia a Clarinha, porque ela
não retornava suas ligações nem respondia suas mensagens. Ele queria saber onde ela estava. Queria reconquistar aquele espaçoso coração. Disse ainda que não conseguia tirá-la da cabeça, que não aceitava
o rumo que as coisas tinham tomado e que estava disposto a mudar. Até soluçou ao dizer essas coisas.
Confesso que ao mesmo tempo em que deu vontade de rir da coincidência de esse
pobre apaixonado ter ligado no exato momento em que sua amada recebia pica por
todo lado, deu vontade de chorar por tudo que há de feio e triste no mundo. Mas
não chorei não. Só disse que não sabia por onde andava a ex dele, e que já
tinha umas semanas que eu não falava com ela. A vida é dura. Sem trocadilho,
por favor.
Depois de dar aqueles belos conselhos à
Clarinha hoje, bati uma punheta, tomei banho, vesti uma roupa qualquer, e
pensei em comprar cigarro porque a minha carteira, que estava quase cheia, tinha
ficado na casa da Laura. Entretanto, veio uma preguiça da porra. Meus vícios
são meio fracos. Decidi não comprar e ficar só na cerveja mesmo. Coloquei The
Civil War no meu velho aparelho de som, e me senti feliz.
Pensei em telefones silenciosos e barulhentos;
em pessoas que topam fazer sexo com animais;
na torneira que não para de pingar;
na minha rua que fede;
naquele cara que sumiu pra sempre na água
enquanto brincava de Kitesurf;
depois pensei nas grandes nádegas que a
Clarinha tem, apesar de não ter uma cara muito boa;
no batom e bosta dela que, provavelmente
amanhã, estarão no pau do cara que parece o PC;
no amor desesperado do ex que não parava de
ligar para todo mundo.
Depois me peguei rindo ao lembrar do que eu havia dito: "e ainda há a possibilidade de nascer um sentimento depois de o moleque trabalhar nessa tua fonte de merda". Profundo, né? Novamente, sem trocadilhos, por favor.
Lucas Kalleb

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