20 de junho de 2015

Célula


Foi no ano passado. Uma amiga me convidou para uma reunião evangélica que rolaria na casa dela. Disse que o nome era "Célula", nada mais sendo que uma espécie de culto protestante descontraído para atrair novas almas para a igreja. Para Cristo. Como ela havia me convidado várias outras vezes, e, naquele sábado específico, eu não tinha nada para fazer além de ir ao Acácio's Bar beber cerveja e escutar alguma música, acabei aceitando o convite (de qualquer forma, eu não tinha muita grana para o bar).
Cheguei trinta minutos depois do horário que ela, minha amiga, disse que a tal reunião começaria. E não havia começado. Tinham várias cadeiras pela sala do apartamento, mas poucas pessoas por ali. Uns vinte minutos depois de eu chegar, a "coisa" teve início.
"Boa noite, meus amados", disse uma gorda usando uma camisa bem apertada e saia curta. "Sejam muito bem-vindos. É um prazer tê-los aqui essa noite". Existem gordas bonitas, mas essa não era. Além de gorda, tinha um aspecto inchado, de quem só comeu farinha e batata a vida inteira; e a pele parecia meio manchada de sujeira.
"Que tal nos apresentarmos?", ela sugeriu, como uma idiota falando com criancinhas. Todo mundo disse o próprio nome. Quando uma pessoa terminava de se apresentar, a gorda repetia o nome dito e acrescentava a frase "Jesus te ama, viu?" 
A última pessoa se apresentou. "Janete, Jesus te ama, viu?"
"Agora, vamos louvar ao Senhor?", ela disse com uma expressão facial de felicidade. Então, um guri começou a tocar musiquinhas alegres no violão, que estava desafinado. E todos os outros, inclusive eu, acompanharam com palmas ritmadas. Acho que três ou quatro músicas foram tocadas.    
Depois, a gorda disse que era hora de ouvir a palavra de deus. Abriu uma bíblia, e pediu para quem também tivesse uma, acompanhar a leitura; e para os que não tinham, pediu para sentarem ao lado do "irmão" que possuía. Muito bem. Eu não tinha uma e nem fiquei ao lado de porra de "irmão" nenhum. A leitura começou. Não era sobre a parte em que a escravidão é tida como coisa aceitável; nem aquela em que um homem é apedrejado pela "povo de deus" por cortar lenha no sábado; muito menos a parte em que um guerreiro sacrifica a própria filha virgem à Jeová. Não, não. Foi aquela em que Jesus diz: "Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei". Trecho bonito.
A garota inchada terminou de ler e falou algumas palavras brevemente.
Aquele lugar era muito chato. Tinha me arrependido de ir.
Assim que terminou de falar sobre a Palavra Sagrada, ela, a gorda, pediu a todos que ficassem de pé e fechassem os olhos para entrarem em contato com deus. Não fechei nenhum dos meus dois olhos. Alguém apagou a luz da sala (mas não ficou muito escuro) e uma música calma começou a tocar. Não era o guri do violão desafinado que tocava. Era uma música gravada.
Algumas pessoas ficavam falando alto em uma espécie de oração coletiva e outras cantavam a música que estava tocando no que achei ser um Home Theater legalzinho.
Tinha gente fazendo caretas de dor e de choro. Olhei para a gorda. Ela ficava dizendo: "Papai, papai. Me cobre com a tua sombra e com o teu perfume". Aí, teve uma hora que ela colocou uma das mãos por baixo da saia, mexeu um pouco lá e levou a mesma mão até as narinas. Fez uma cara estranha e continuou com o mesmo lenga-lenga do "Papai, papai". Isso se repetiu mais algumas vezes até a música terminar. Quando terminou, todo mundo aplaudiu sorrindo. Não aplaudi, nem sorri.
A gorda agradeceu a presença de todos, e pediu para permanecermos em nossos lugares, pois hot-dogs deliciosos preparados por ela (deu um sorriso maroto ao dizer isso) seriam servidos.
Mais música.
Fingi que precisava atender a uma ligação, e saí quase correndo do apartamento. Não voltei. Nunca mais.
Aprenda uma lição: opte pelo bar mesmo se estiver com pouca grana.


Lucas Kalleb 

4 comentários:

  1. Frequento uma célula, e realmente você não foi em uma. Não que quem estava lá não estivesse fazendo sua parte, mas foi você que não tinha outra coisa melhor pra fazer, e resolveu ir, sem nenhuma vontade de ir. Creio que cada pessoa encontra Deus em sua vida, do jeito que lhe convém. Respeito seu ponto de vista, e mais uma vez: escrevesse mt bem! Continue assim.. Nada pessoal, viu!? Haha

    ResponderExcluir
  2. Se a tua experiência com esse tipo de reunião foi legal, fico feliz e te respeito, de verdade. Mas a minha experiência não foi, e acho que isso também deve ser respeitado. As coisas relacionadas à bíblia ou a deus não precisam ser necessariamente enriquecedoras ou cheias de virtude. Pensar assim é burrice. Não sei se tu percebeste durante a leitura do texto, mas eu tinha outra opção de lugar para ir sim, porém escolhi aceitar o convite da minha amiga. Se o elemento volitivo não estivesse presente, tenha certeza de que eu não teria ido.
    Entretanto, ao chegar lá, ouvi músicas horríveis cantadas por vozes feias acompanhadas de um violão que ninguém se preocupou em afinar e ainda vem uma garota que depois de passar a mão pela vagina e cheirar diz que preparou um lanche delicioso para mim e todos os outros. E apesar de tudo isso, a falha foi minha? É isso que queres dizer? Acho que tens que rever a tua visão de mundo. Respeito pessoas religiosas. Tenho amigos que são. Mas desistir da capacidade de pensar já é demais para mim.
    E não, não acho que cada pessoa encontra deus. Ele pode não existir. É presunção usar essa frase, Amanda. As tuas verdades são tuas, e as pessoas não precisam aceitá-las. Assim como não precisam aceitar as minhas. Que elas criem as próprias. Têm esse direito.
    Ao contrário da tua, a minha resposta foi mais pessoal sim, porém vale para muitas outras pessoas que pensam como tu.
    Forte abraço.

    ResponderExcluir
  3. Tens razão no que disse, cada um deve respeitar a opinião alheia. E eu respeito, em um primeiro momento me pareceu uma grande ofensa, mas ao analisar melhor, é só mais um texto corriqueiro, de alguem comum, como eu ou qualquer outro.já lhe disse o quanto escreves bem, isso é indiscutível. Assim como o fato de eu falar sobre o Deus que eu creio. Em nenhum momento disse que deves crer nele, apenas disse o que eu acredito. E não, eu não sou religiosa, isso não me define. Sei pensar, claro que sei, não concordo cm muitas das suas palavras, mas assim como vc, respeito. Pessoal ou não, espero que não pense que quis dizer que você falhou, e se isso lhe pareceu, sinto mt.
    Faça um favor, não pare de escrever. Abraços.

    ResponderExcluir