25 de agosto de 2015

Sebo


Estava bastante velho e com muitas páginas prejudicadas por fungos. Apesar disso, Pedro decidiu ficar com o livro encontrado no sebo do senhor Humberto. Fome, do Knut HamSun, capa dura. Pagou apenas cinco reais. Livros velhos, ele, Pedro, costumava dizer, não contam apenas histórias escritas pelos autores, mas contam as dos leitores das histórias também. Em muitos livros de sebo, havia encontrado diversas preciosidades: declarações de amor rabiscadas em folhas de caderno escolar; extratos antigos de bancos falidos; notas de compras ainda em cruzeiro; frases de cunho sexual pueris; poemas anônimos inacabados; dedicatórias; assinaturas; "Este livro pertence a .../ 1987"; desenhos estranhos, tipo aqueles que fazemos enquanto jogamos conversa fora pelo telefone (ah, e tinha encontrado vários números de telefones também) etc. Com este de cinco reais, não foi diferente: achou escrito a lápis em uma das páginas do próprio livro - daquelas com fungos - as seguintes palavras,  quase incompreensíveis em uma primeira passada de olhos:
"Tua ausência é presença frequente nas cenas bagunçadas que dançam e correm diante dos meus olhos, seja quando embrulhados por pálpebras de pele, seja pelas de vento.
Como goma de mascar usada, há muito cuspida no chão duro também vira chão duro, teu não-estar virou peito; virou coração; virou carne ferida grosseiramente cicatrizada, e ainda suja de sangue seco, sangue escuro.
Ir embora era hábito teu tanto quanto voltar era. Logo, a certeza da volta sempre foi tão grande em mim que não deixava eu entender que havia a possibilidade de a volta ser apenas possibilidade. Por isso tanta confusão quando me deste o desamparo.
Teu adeus ainda é muito sonoro dentro do meu esquecimento: Queres que eu compre Lucky ou Marlboro? Nem lembro qual foi a resposta que te dei. Mas se fosse hoje, te diria que não precisa comprar nenhum, porque ainda tenho alguns amassados no bolso da camisa; pediria para ficarmos deitados no sofá, na cama, no chão; ou que saíssemos para ver um filme e depois comer qualquer coisa, enquanto falamos de tudo e de nada, só para ficarmos juntinhos aqui nessa noite quente. Mas não foi hoje. Já faz muito tempo. Pensando bem, para o caso de um dia ressurgires das águas, do fogo ou do lodo, afinal, as possibilidades continuam possíveis, podes trazer Sampoerna? Aquele com gosto de cravinho, com gosto do cheiro dos teus pelos escondidos. 
George Sales,
para Yishka. 1995."

           Pedro, com olhos marejados, começou a espirrar por causa da poeira do livro, que logo é fechado. Livros de sebos são os melhores, ele diz sorrindo antes do próximo espirro. ARTCHIM! 

                                                                                          (Lucas Kalleb) 

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