- Porra! E aí?
- Só ontem encontraram. Já fazia cinco dias, acredita? Foi o fedor que fez perceberem. Chamaram a polícia, arrombaram a porta e acharam ele na sala. Estava só pele e osso.
- Caralho. Essas coisas me
deixam mal, meio pra baixo, saca? Deve ser escroto morrer.
- É foda mesmo.
- O cara está vivinho,
conversando, rindo, chorando, sonhando...aí, "Puff"! Morre.
- Mas nem dá para saber
se é tão horrível assim essa coisa de morrer. E se indo para o outro lado a gente descobre que é bem
melhor do que qualquer ideia de paraíso que já tivemos, e que a vida aqui não passava de sombra por cima de sombra? O maior problema deve ser como vamos morrer. Mas depois de morto, mortinho mesmo, deve ser tudo fichinha.
- Pode ser. Quem sabe
a gente nem tenha que descobrir qualquer coisa que seja, se vamos para um lugar melhor ou pior, porque talvez a morte não seja nada além do
nada. O triste mesmo é está vivo e se saber condenado à morte.
- Pois é. Só sei que a
morte e a vida são preocupação dos de cá, porque os que já estão lá não devem estar nem aí para esse papo todo. Talvez morrer, quem pode
dizer?, é estar em lugar nenhum.
- Morrer é estar sem estar.
- É.
- Há quem diga que sempre
sonhamos quando dormimos, porque os pensamentos nunca param de se mexer dentro da cachola. O que tu achas? Mas tem dias que acordo, e parece que não tive sonho nenhum. Aí começo a pensar que a morte pode ser algo assim, tipo a escuridão de uma noite sem sonhos. Isso me traz conforto às vezes.
- Sacada legal essa aí!
- Sou cheio delas, pô. Tenho que ir, cara. Tu vais me emprestar aquela
grana?
- Claro, mas só tenho esses
cinquentinha. Vai servir?
- Vai sim. Valeu mesmo. Do próximo
mês não passa.
- Não esquenta.
Lucas Kalleb

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