5 de novembro de 2014

Encontro com Deus

Hoje, através da janela do carro, vi um homem deitado em uma calçada. Acho que já passava de meio dia. Ele era negro, estava de bruços e vestia nada mais que uma camisa suja. Isso mesmo, apenas uma camisa. Sua bunda azul e marcada estava completamente à mostra. Não pude ver o rosto. Desviei o olhar daquela cena degradante, baixei a cabeça e pensei: "Isso não está certo. Não pode estar. Ele é um semelhante. Um humano". Como que por ironia, na tal camisa que ele vestia estava escrito "Encontro com Deus". Saí dali correndo para casa. 
Estou no meu quarto. A noite já chegou. Ainda há pouco, comi com culpa dois pratos de macarronada. Acabei de desligar a central de ar porque estou sentindo muito frio. Lá fora está chovendo um pouco. Não dá para evitar pensar no negro: deve estar sonhando com um mar cheio de peixes e encantos, enquanto, a despeito do provável sonho, as águas do céu molham e contornam seu corpo em direção ao bueiro, e as pessoas que passam (as que têm casa, mesa e cama), observam suas nádegas azuis. Observam com entorpecimento o cu.

Lucas Kalleb

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