9 de agosto de 2014

Quase tão Bonita

Não olha para os teus colegas de Economia Política ou Filosofia Jurídica. Não fica olhando por muito tempo para os olhos da tua amada mãe. E jamais para os daquele filho da puta que é teu pai. Quando a mulher que pede dinheiro na rua aparecer, tenta fixar teus olhos apenas em um dos ombros dela. Mas nunca no nariz, sobrancelhas, boca e cabelo. Os filhos dela estão famintos.
Evita o máximo olhar para as tuas antigas amantes que passam do outro lado da calçada. Fique longe do velho sem boca que vende balão na praça. Ele parece ter saído de um dos livros do George R. R. Martin. Continua visualizando a morte dos motoristas de ônibus, porteiros, telefonistas e dos moralistas do Templo do Saber.
Não olhe nos olhos.
Olhos vendidos,
velhos,
vazados;
Olhos desesperados,
banhados em dor,
resignados;
Olhos azuis, verdes e amarelos;
Olhos que precisam todos os dias beber  sua dose de sangue;
Sujos de remela;
Olhos que te cobram amor, compreensão;
Olhos que te mandam procurar um emprego;
Olhos que se incomodam em te ver beber cerveja em um banco do supermercado.
Olhos de peixe.
Prefira o olhar dos cães e gatos. Deixa teu telefone gritar por ti 55 vezes. Aumenta o volume do teu aparelho de som até o grito do Tom Waits tornar impossível ouvir as batidas na porta. Vê as paredes. Encara o céu. E nunca se esquece de olhar tuas mãos.
Então, depois que tu fores capaz de fazer isso, talvez a tua existência seja quase tão bonita quanto devem ter sido os grandes olhos da pequena sereia que foi encontrada morta na praia, hoje de madrugada.

Lucas Kalleb 

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