Não
olha para os teus colegas de Economia Política ou Filosofia Jurídica. Não fica
olhando por muito tempo para os olhos da tua amada mãe. E jamais para os
daquele filho da puta que é teu pai. Quando a mulher que pede dinheiro na rua
aparecer, tenta fixar teus olhos apenas em um dos ombros dela. Mas nunca no
nariz, sobrancelhas, boca e cabelo. Os filhos dela estão famintos.
Evita
o máximo olhar para as tuas antigas amantes que passam do outro lado da calçada.
Fique longe do velho sem boca que vende balão na praça. Ele parece ter saído de
um dos livros do George R. R. Martin. Continua visualizando a morte dos
motoristas de ônibus, porteiros, telefonistas e dos moralistas do Templo do
Saber.
Não
olhe nos olhos.
Olhos
vendidos,
velhos,
vazados;
Olhos
desesperados,
banhados
em dor,
resignados;
Olhos
azuis, verdes e amarelos;
Olhos
que precisam todos os dias beber sua
dose de sangue;
Sujos
de remela;
Olhos
que te cobram amor, compreensão;
Olhos
que te mandam procurar um emprego;
Olhos
que se incomodam em te ver beber cerveja em um banco do supermercado.
Olhos
de peixe.
Prefira
o olhar dos cães e gatos. Deixa teu telefone gritar por ti 55 vezes. Aumenta o
volume do teu aparelho de som até o grito do Tom Waits tornar impossível ouvir
as batidas na porta. Vê as paredes. Encara o céu. E nunca se esquece de olhar
tuas mãos.
Então,
depois que tu fores capaz de fazer isso, talvez a tua existência seja quase tão
bonita quanto devem ter sido os grandes olhos da pequena sereia que foi encontrada
morta na praia, hoje de madrugada.
Lucas
Kalleb
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