Vejo-o sentado com vários outros homens e mulheres ao redor
de uma mesa, bebendo muita cerveja e expelindo a fumaça do cigarro como um
dragão...
Ele contando várias piadas para uma platéia de loucos.
Ele bêbado, deitado no colo da minha avó falando coisas sem
sentido.
Eu lembro...
Ele me levando para comprar uvas todos os domingos de manhã,
e antes de voltarmos para casa já tínhamos devorados todas.
Ele e eu com espuma para barbear no rosto, de frente para o espelho, prontos para
tirar a barba (eu não tinha mais que quatro anos).
Ele me pedindo para buscar a colher dele (era uma com o
símbolo aeronáutica que até hoje tenho) para tomar sopa...mas eu nunca
alcançava a gaveta, e ele vinha logo atrás para me ajudar, rindo daquela
maneira estranha que tinha de rir.
Ficávamos sentados em frente de casa à noite, e admirávamos
as diversas mulheres que passavam...houve uma que realmente nos encantou. Ela
tinha os cabelos mais compridos que já vi.
Apesar de ser apenas um garotinho, ele nunca me tratava como
tal. Nós éramos parceiros.
Lembro de correr para ele toda vez que minha mãe me
brigava...ah, e ele me dava um abraço tão bom. Ali eu estava protegido de tudo,
nada podia me ferir.
Eu...
Minha mãe berrando como uma louca com a notícia da parada
cardíaca.
Ele deitado em um caixão no meio da sala.
Minha avó sentada em uma cadeira, chorando baixinho. Nunca
eu tinha visto ela chorar antes, e nem depois.
Eu com raiva, gritando, empurrando todos, correndo para o telefone, tentando ligar para o céu e
pedir para Deus mandar meu avô de volta...mas parece que Ele estava ocupado com
outras coisas.
E depois de toda a cerimônia, todos comentavam sobre ele: “vocês perceberam? Ele estava sorrindo!” Pois é...era mais uma das peças dele!
Por volta de dez anos depois, vou à casa de uma tia, e vejo
um retrato de um homem: jovem, careca, com um bigode estranho, olhando fixamente
para mim...era ele, era ele. Forte, sem medo, com firmeza no olhar. Tinha enganado a morte.
Você me deixou cedo demais. E aquele abraço que me
protegia de tudo e de todos, faz tanta falta nesses dias de agonia.
Meu velho, só quero que saiba que aqueles domingos em que íamos
comprar uvas juntos, foram os melhores.
(Lucas Kalleb)
(Lucas Kalleb)
Me fez chorar.... :'( exatamente hoje minha amiga perdeu o avô.
ResponderExcluir=/
ExcluirRealmente esse texto é lindo. Impossivel não sentir a pontinha do que você sentiu, mesmo sendo apenas um garotinho.
ResponderExcluirEmocionada fiquei!
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirValeu, Ingrid =D
ExcluirPs. Ainda sinto =/