Naquele dia, eu devia ter uns treze anos. Estava sentado na frente da minha casa, olhando a rua. Sempre gostei de olhar a rua. De repente, avistei um cão andando nela. Era um cachorro estranho, preto e bem sujo. Mas não parei de olhar, e se você olhasse o suficiente para aquele cão, a beleza começava a resplandecer.
Desde criança, eu já sabia que a maioria das pessoas é feita de carne, gosma e bosta. Mas há algumas poucas que estão acima, que mostram o absurdo das coisas...elas brilham! Essas poucas são as que vivem...às vezes, nem são pessoas. São cães!
De qualquer modo, fiquei olhando aquele animal andando no meio da rua, sem medo, sem precisar de pena ou de perdão, sem precisar de palavras bonitas ou de livros clássicos. Ali estava ele, andando entre aquelas latas velozes (com seus homenzinhos horríveis dentro), parecendo um rei.
Penso que tudo o que meu cão queria, era atravessar a rodovia, debaixo da lua, porque o resto não importava mais. E eu fiquei ali admirando...aquele momento era perfeito. Mas como alguém já disse, o máximo que podemos esperar da perfeição é apenas um instante. Bem, os outros não permitiram que meu amigo chegasse do outro lado.
De repente, houve um barulho seco, e tudo perdeu a cor...um verme dentro de uma das latas velozes feriu meu cão, feriu a beleza, feriu um ser que não estava pedindo nada Nem amor, nem ódio, nem reconhecimento, nem compreensão.
O meu cão ficou lá, estirado na beira da pista, se debatendo em agonia...enquanto eu gritava por socorro, e pulava de desespero diante do horror de tudo. Ninguém apareceu. As latas continuaram correndo, os pedestres continuaram andando...é só disso que me lembro.
Ninguém se importou. Acho até que alguns se divertiram com a cena. Alguma vaca gorda deve ter dito para seus pequenos filhinhos de merda: “Não é uma graça esse garoto gritando, pedindo ajuda para salvar o pobre cão? Oh, um amor!”. Vão à merda todos vocês!
O que dói é que sempre que aquele dia vem à minha mente, o meu cão está jogado no chão, tremendo, tremendo, tremendo...sem parar, eternamente!
(Lucas Kalleb)
(Lucas Kalleb)
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